Cinema produzido fora do eixo Rio-SP ganha força

Publicado em 23 de dezembro de 2025
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Por Petrobras e Estadão Blue Studio

Além das indicações para prêmios internacionais, o filme O Agente Secreto, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, foi capaz de outro feito: é o primeiro produzido fora do eixo Sul-Sudeste a ultrapassar a marca de 1 milhão de espectadores. Esse movimento de descentralização pode ser observado tanto na circulação dos filmes quanto no reconhecimento crítico e institucional.

No Festival de Gramado, por exemplo, o desempenho recente de produções das Regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste evidencia essa mudança. Nas últimas cinco edições, em quatro delas uma obra dessas regiões foi premiada como melhor filme.

De acordo com o acreano Clemilson Farias, sócio-diretor da produtora audiovisual Leão do Norte e conselheiro da Conne/Norte, o fortalecimento fora do eixo passa pela manutenção e ampliação das políticas de fomento com recorte regional, mas também pela garantia de auto representação, formação contínua e fortalecimento das redes locais de produção.

“Para além do financiamento, é essencial fortalecer o protagonismo das produtoras locais. Quando as histórias são contadas a partir dos próprios territórios, rompe-se o ciclo de enquadramentos externos e estereotipados, permitindo narrativas mais complexas, diversas e conectadas com a realidade local”, explica.

Há 30 anos investindo no cinema nacional, a Petrobras tem como orientação formal olhar para esse quesito em seus patrocínios, seja diversidade de públicos a ser atingidos, acessibilidade, etnias, realizadores, temas e territórios. Segundo Milton Bittencourt Neto, gerente de Patrocínio Cultural da empresa, existe hoje um contexto que possibilita um maior entendimento da importância da cultura, inclusive econômica, o que favorece a articulação e o desenvolvimento de novos polos de audiovisual.

“Estamos sempre aprimorando dispositivos que nos permitam apoiar uma distribuição mais equilibrada da atividade cultural. Em termos de cinema, em nossa última seleção pública, viabilizamos 26 novos projetos, de produtoras de todas as regiões do Brasil. Conseguimos alcançar uma distribuição inédita tanto em termos de inscrições quanto de projetos selecionados”, celebra.

Outra característica que vem sendo notada é a frequência de produções fora dos grandes centros. Com profissionais mais qualificados e incentivos financeiros, o setor se torna mais aquecido e, naturalmente, a qualidade se eleva. “Precisamos manter uma constância de produção e de projetos robustos de distribuição para furar a bolha”, afirma Gabriel Pires, coordenador-geral do Nordeste LAB, plataforma de articulação e fomento do setor audiovisual, com foco na Região Nordeste. Segundo ele, é necessário políticas não só para novos entrantes, mas também para manutenção de empresas, projetos e profissionais nessas regiões.

Cinemas de rua

De acordo com a Agência Nacional do Cinema (Ancine), em janeiro deste ano o Brasil tinha 3.509 salas de cinema em funcionamento, um recorde para o País. Embora não existam números exatos, estima-se que menos de 15% desse total seja composto por cinemas de rua. Dentro desse contexto, eles se tornaram símbolo de resistência e são também um meio de divulgar projetos realizados nas mais diversas regiões do País.

Este é o caso do agora restaurado Cinema São Luiz, no Recife, que completou 73 anos em 2025 e ganhou ainda mais notoriedade pela aparição no filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho. “A sensação que eu tenho já há muitos anos é que tem uma cúpula, um campo de força que protege o São Luiz. É como se a possibilidade de perder o São Luiz, de virar igreja, de virar qualquer coisa que não seja o cinema São Luiz, não é uma opção aqui no Recife. Eu acho isso muito bonito. E ocorre que ele se tornou um ponto zero da exibição desse cinema pernambucano”, diz o cineasta.

“Acho que há um trabalho muito natural de educação do público. É claro que o cinema comercial multiplex faz parte da vida de qualquer pessoa que gosta de cinema. Mas há uma consciência muito grande do que significa um cinema de rua a partir do momento em que os mais jovens vão ao cinema São Luiz. É uma outra experiência, é uma outra sensação”, completa Kleber.

Com a competição dos serviços de streaming e das grandes redes de shopping, os cinemas de rua passam por um momento delicado, especialmente pós-pandemia. “A curadoria está no centro da recuperação possível para as salas de cinema, sobretudo as de rua. Transformar salas em pequenos centros culturais, com exposições, festas, celebrações, saraus”, avalia Cláudio Marques, sócio-diretor do Cine Glauber Rocha, em Salvador. “Precisamos de sensibilidade do poder público, que deve olhar os pequenos e médios empresários de exibição brasileiros como aliados da produção nacional”, completa.

O cinema de rua também desperta o pertencimento do espectador em relação à própria cidade. É um jeito de ocupá-la, sem os muros que cercam as salas dentro de shoppings. “A pessoa está passando na calçada e entra para ver um filme. O cinema de rua é importante para a sociedade como um todo. Ele está na rua, onde o povo está. É um dos fundamentos da democracia. O universo da cidade está todo ali”, diz Adhemar Oliveira, responsável pelo Espaço Petrobras de Cinema e a Cine sala, em São Paulo, e o Cine Belas Artes, em Belo Horizonte.