Competitiva Nacional – longas

  • A HISTÓRIA DA ETERNIDADE
    de Camilo Cavalcante
    PE, 120’, Cor, Digital, 2014

    Camilo Cavalcante cria um sertão feminino que sonha. De desejos interditos e que provocam sofrimentos. São três histórias, três mulheres de diferentes gerações. Das Dores é a avó (Zezita Matos), que quer bem ao neto que mora longe. Tão longe que já se tornou outra pessoa. Querência (Marcela Cartaxo), meia idade, pensa que não deseja mais nada de tão amargurada. Mas daí vem o sanfoneiro cego (Leonardo França) lembrar que ela está viva e ainda pode pretender o mundo, algo ambicionado por Alfonsina (Débora Ingrid), a adolescente. Querer demais da conta pode ser um crime, dependendo de quem vê. Assim bem entende o fazendeiro Nataniel (Cláudio Jaborandy), o pai, que não suporta a admiração que seu irmão Joaozinho (Irandhir Santos), artista e epilético, provoca em sua filha. Uma história de mocinhos e um vilão. História que acontece em “lugar nenhum”, que é o sertão, feita para ser vista e escutada no cinema. Nada performático como o curta de mesmo nome que o próprio Camilo fez em 2003. Mas, uma história linear bem contada, com momentos de catarse e epifania, lindamente registrados em scope. Um filme com atores inspirados e que fala ao coração. Prestem atenção nas atuações de Débora Ingrid e Leonardo França, que dão vida a dois personagens que poderiam facilmente cair na tosca caricatura e que são vitais à trama. Camilo Cavalcante teve que pular muitas armadilhas para construir sua fábula. E “A História da Eternidade” é seu primeiro longa! (Cláudio Marques)

    Sessões:

    30/10 Quinta-feira 19h30
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com o diretor após a sessão

    31/10 Sexta-feira 10h
    CAHL - Centro de Artes, Humanidades e Letras/UFRB
    Conversa com o diretor após a sessão

    31/10 Sexta-feira 13h30
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 2

  • BRANCO SAI, PRETO FICA
    de Adirley Queirós
    DF, 93’, Cor, Digital, 2014

    Um bairro semidestruído, cenário de ficção científica de um futuro nada promissor. Sons de máquinas precárias em funcionamento em uma espécie de abrigo nuclear. Em uma cadeira de rodas, um sujeito claramente marcado pela guerra. No rosto dele, tristeza, cansaço e desilusão. Mas, mesmo na dor a poesia se impõe. E tomaremos conhecimento de sua história através da música que ecoa com tal força que não poderemos mais ficar impassíveis a “Branco Sai, Preto Fica”. Marquim, na cadeira de rodas, é um dos três protagonistas. O segundo, Shockito, possui uma perna mecânica e também está marcado emocional e fisicamente pela violência do passado. Já Dilmar vem do futuro. Ele investiga crimes perpetrados pelo governo brasileiro. Dilmar vai até Ceilândia, cidade satélite do Distrito Federal, para juntar provas de um crime cometido por policiais, que entraram em um baile funk, em passado recente, e atiraram contra os frequentadores, de forma deliberada. O longa é tão imperfeito quanto seus personagens. Da precariedade, Adirley extrai a potência e filma os espaços como poucos cineastas brasileiros. “Branco Sai, Preto Fica” não é um filme do ressentimento. É um filme de ação política, cujos resultados ainda estão para eclodir. Ou explodir, como no filme. (C.M.)

    Sessões:

    02/11 Domingo 20h30
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com o diretor após a sessão

    03/11 Segunda-feira 16h05
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 2

  • BRASIL S/A
    de Marcelo Pedroso
    PE, 70’, Cor, Digital, 2014

    Emblemático que Marcelo Pedroso comece tudo pelo mar. Passados 500 anos, continuamos em uma espécie de “marcha civilizatória” empreendida pelo homem branco. Séculos se passaram e tudo mudou. Mas, tudo continua do mesmo jeito. O capital é glamouroso, sedutor e performático. As escavadeiras são um show em si. Desfilam, levantam seus braços, dançam e são conduzidas por uma bela mulher de biquíni. Mas, enquanto sonhamos em voar e alcançar a lua, a bem da verdade não deixamos, ainda, a lavoura arcaica de ranços escravocratas. Os rostos sofridos da população, que apela aos deuses em busca de alento, atestam o fracasso. A economia desenvolvimentista repete em voz baixa a máxima “Esse é um país que vai para frente. E o carro “0km” mal sai da garagem do prédio e já enfrenta engarrafamento. “Brasil S/A” é uma obra política, consciente e aberta. Pedroso dá continuidade a algo que começou no curta “Em Trânsito”, mas vai além. Em termos políticos e cinematográficos. De imagem e som poderosos, é um filme para ser visto no cinema. Coitado de você que está doido para baixar e ver “Brasil S/A” na tela pequena do computador. (C.M.)

    Sessões:

    02/11 Domingo 19h
    CAHL - Centro de Artes, Humanidades e Letras/UFRB

    04/11 Terça-feira 20h40
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com o diretor após a sessão

    05/11 Quarta-feira 13h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1

  • CASA GRANDE
    de Fellipe Barbosa
    RJ, 115’, Cor, Digital, 2014

    “Casa Grande” é um filme cuidadoso, que possui grande dose de afeto por seus personagens, sobretudo pelo jovem protagonista vivido por Thales Cavalcanti. Cuidadoso com o espectador também, pois há uma nítida preocupação em contar bem uma história sem que a audiência seja menosprezada. Pelo contrário, estamos diante de um roteiro inteligente, que se revela aos poucos e nos dá chance de interação. Vejo com excelentes olhos a possibilidade de comunicação de “Casa Grande” com um público amplo, inclusive da TV. Trata-se de um filme narrativo ancorado em uma direção segura e em nada exibicionista. Em “Casa Grande”, tudo está no lugar certo para contar a história de uma família classe alta do Rio de Janeiro em crise econômica. Logo na primeira sequência temos Hugo (Marcelo Novaes), o pai, apagando as luzes da casa imensa, aposento por aposento. Além da menção à crise, tive ali, naquele primeiro plano, a sensação de quebra da estrutura moral daquele lar. Mas, o que parece em princípio um problema se torna um rito de passagem e libertação para o jovem Jean (Thales Cavalcanti). Com a derrocada da família, ele terá a chance de se conhecer, de despertar para as pessoas com quem convive e olhar para a cidade em que habita. O final de “Casa Grande” é de uma beleza desconcertante. Fellipe Barbosa, em seu primeiro longa, demonstra uma consciência impressionante com relação ao que quer contar e a onde quer chegar. (C.M.)

    Sessões:

    01/11 Sábado 17h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com o diretor após a sessão

  • CASTANHA
    de Davi Pretto
    RS, 95’,Cor, Digital, 2014

    João Carlos Castanha é sujeito documentado, ator e roteirista desse longa. Mas, como se deu a participação dele na escrita do filme? Ele escreveu cenas? O filme foi todo pensado ou a maioria das cenas aconteceu no acaso observacional? Até onde entramos na vida de Castanha e o quê foi fabulado? Claramente, estamos em um filme híbrido e não importa muito entender o que é real ou ficção. O que é importa, mesmo, é que acreditamos e nos aproximamos do personagem, que nos revela um grau precioso de intimidade. A credibilidade conquistada pelo filme jamais é arranhada. João Carlos Castanha é ator e transformista. Ele tem 52 anos, não é mais nenhum garotinho, mas sua vida é precária. Castanha mora na periferia de Porto Alegre e precisa tomar conta de sua mãe, extremamente debilitada. As cenas com sua mãe são emocionantes. Escutamos o silêncio e os suspiros, de alguém extenuada e que parece querer desistir da vida, em alguns momentos. O pai está no asilo e fica logo claro que Castanha não o tolera. O sobrinho é viciado em crack. A intimidade desse círculo familiar nos joga para dentro do filme. Os amigos da noite rendem diversão, mas também pesadelo. “Castanha” é um filme sombrio, que flerta o tempo todo com a morte. Castanha tem plena convicção de que seria um ator respeitado em países civilizados. Castanha é um anti-herói brasileiro. E Davi Pretto fez da amargura um belo e verdadeiro filme. (C.M.)

    Sessões:

    30/10 Quinta-feira 17h
    CAHL - Centro de Artes, Humanidades e Letras/UFRB
    Conversa com o diretor após a sessão

    01/11 Sábado 20h15
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com o diretor após a sessão

    03/11 Segunda-feira 19h
    Sala Walter da Silveira

  • ELA VOLTA NA QUINTA
    de André Novais
    MG,108’, Cor, Digital, 2014

    “Ela Volta na Quinta” é um filme simples, muito simples. O longa traz a história de um casal de meia-idade, moradores da periferia, que está prestes a se separar após longos anos de vida conjunta. Não há rancor ou ódio. Há dor, mas não falta amor e respeito entre eles. Os filhos estão preocupados, sobretudo após o aparecimento de uma amante na vida do pai. Existem dois detalhes fundamentais que precisam ser observados e que tornam “Ela Volta na Quinta” um filme raro, talvez divisor de águas no cinema nacional. O primeiro deles é que estamos na periferia de uma grande cidade. Mas, onde estão os tiros? E as drogas? E as situações de extrema violência e pobreza? Estão por aí, mas não é sobre isso que o filme se debruça. Vale lembrar que a tradição do cinema brasileiro é de olhar favela e bairros periféricos com horror. É raro ver a vida, sentir a leveza da brisa e simplesmente contemplar os mais básicos problemas do ser humano. “Ela Volta na Quinta” confere humanidade aos moradores da periferia do país. Depois, “Ela Volta na Quinta” é um filme naturalista. André Novais dirigiu pai, mãe, irmão e irmã com desenvoltura impressionante. Um trabalho com atores não profissionais que atingiu um resultado impressionante. O filme possui o seu próprio tempo, que é o tempo da vida daquelas pessoas. Um filme humano como poucos, absolutamente necessário para o nosso cinema. (C.M.)

    Sessões:

    29/10 Quarta-feira 17h30
    CAHL - Centro de Artes, Humanidades e Letras/UFRB
    Conversa com o diretor após a sessão

    31/10 Sexta-feira 20h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com o diretor após a sessão

    02/11 Domingo 13h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 2

  • HOMEM COMUM
    de Carlos Nader
    SP, 103’, Cor, Digital, 2014

    Cerca de 20 anos atrás, Carlos Nader se predispôs a interpelar homens comuns com questões metafísicas: “A vida faz sentido para você?”, “A vida te parece estranha?”. Perguntas como essas foram feitas a Nilson e, a partir da resposta inicial dele, Nader passou a registrar a trajetória desse caminhoneiro e sua família. O cineasta acompanhou nascimentos, mortes e viu a debilidade alcançar o corpo de Nilson. Paralelo a esses acontecimentos, “Homem Comum” traz trechos de “A Palavra”, de Carl Theodor Dreyer, um filme de extrema força e beleza. O longa dinamarquês trata da perda, mas, indo além, aborda a dificuldade em aceitar a vida em toda a sua estranheza. Seria capaz o homem de vencer Deus e superar a morte? No cinema, sim! A associação da vida real com a vida fabulada ainda se desdobrará num terceiro momento, uma vez que Nader refaz determinadas cenas do filme de Dreyer, mas em inglês. Essa terceira camada amplia e empodera ainda mais o Homem, uma vez que se torna possível reescrever grandes obras que já foram dadas como definitivas. “Homem Comum” é um filme sobre a fé. Ou a falta dela. Um longa que aproxima radicalmente cinema e religião, mas não no sentido institucional. Pode parecer muita coisa para um filme só, mas Nader costura tal complexidade com extrema habilidade. E acaba por construir um filme acessível e com momentos de extrema emoção. Um filme de rara inteligência! (C.M.)

    Sessões:

    03/11 Segunda-feira 20h20
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1

    04/11 Terça-feira 13h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1

  • VENTOS DE AGOSTO
    de Gabriel Mascaro
    PE, 77’, Cor, Digital, 2014

    Do que trata “Ventos de Agosto”? Em princípio, da força da juventude em um local pacato, cercado pelo mar. Dandara tem a energia do punk rock que ela escuta em cima do barco, enquanto passa Coca-Cola para se bronzear. Parece que não está nem aí para nada, apenas vive sua juventude. Ela possui a inquietude dos que trepam em árvores e namoram em meio aos cocos. Mas a força de Dandara está a serviço de sua avó, que necessita de cuidados devido à idade avançada. O tempo da jovem colocado em função do Tempo. Entendemos, então, que “Ventos de Agosto” trata da vida, que inclui a morte. Tudo muda com a chegada do pesquisador de ventos, vivido pelo próprio Gabriel Mascaro. O cineasta, fotógrafo do próprio longa, vai captar o que não se vê, mas se sabe porque se sente. “Ventos de Agosto” é um filme que busca falar sobre o invisível. E, para isso, ele deve se debruçar sobre os corpos, que restam quando as almas se vão. Restos mortais que serão engolidos pelo mar. “Ventos de Agosto” é sobre a generosidade, em vida e morte. E o filme deixa alguns buracos para que o espectador caminhe sozinho, algumas arestas não aparadas que não são defeitos, mas virtudes pois nos deixam pensar. (C.M.)

    Sessões:

    01/11 Sábado 18h
    CAHL - Centro de Artes, Humanidades e Letras/UFRB

    02/11 Domingo 18h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1
    Conversa com a atriz Dandara de Morais após a sessão

    03/11 Segunda-feira 13h
    Espaço Itaú de Cinema - Glauber Rocha - Sala 1