claun

Lançamento de Livro

CLAUN: a saga dos bate-bolas

LANÇAMENTO: 31/10, das 19h às 21h, no foyer do Espaço Itaú de Cinema – Glauber Rocha.

Meteorango-kids sofrem mutações em x-men justiceiros suburbanos. Como ninguém pensou nisso antes? – Hermano Viana

No início do século XX, quando o Carnaval era uma festa para poucos e o Rio de Janeiro passava por grandes transformações, grupos de mascarados se reuniam pelos becos da cidade e enfrentavam a ordem pública e a repressão. Diziam ter o corpo fechado, falar com espíritos e ter poderes sobre-humanos. Eram chamados de “clóvis” ou “bate-bolas”.

Hoje em dia, a tradição continua viva no Rio, sobretudo nos bairros do subúrbio. Os bate-bolas habitam as ruas, disputando o imaginário da cidade. Uma gangue de arrastão poético, à margem do Carnaval convencional, e uma tradição que há anos é criminalizada pela elite carioca. Imerso nesse universo mitológico, o cineasta Felipe Bragança idealizou o projeto transmídia CLAUN, cuja primeira fase é composta por uma websérie e um filme-piloto, a segunda pela graphic novel e a terceira, um jogo de videogame, já está em produção.

A proposta é lançar um olhar de crônica e de investigação sobre a mitologia do Rio de Janeiro e os grupos de clóvis e bate-bolas que tomam as ruas no Carnaval – chegando aos milhares de foliões. Pela primeira vez, essas figuras fascinantes que se apropriam do imaginário pop, como lembra Hermano Viana, “recebem finalmente tratamento de super-heróis”.

O projeto CLAUN começou a ser gestado em 2011 e teve início de fato em 2013, quando estreou a websérie, que deu origem ao filme-piloto Os dias aventurosos de Ayana, apresentado no Festival de Rotterdam. A produção contou com a colaboração de sete turmas reais de bate-bolas. Os três episódios da websérie serão também exibidos em breve nas TVs aberta e por assinatura.

O projeto avança para a publicação da graphic novel Claun: a saga dos bate-bolas, pelo selo Barricada, da Boitempo Editorial. O livro será composto por cinco contos, fábulas urbanas em torno da tradição e das lutas históricas dos grupos de clóvis: “As primeiras máscaras”, “Jonas perde seu rosto”, “Daury e a morte”, “Meu rosto quando imagino” e “Amilcar e os espíritos”. Todos os textos e histórias são de Bragança, e a arte é de Daniel Sake e Diego Sanchez e Gustavo M. Bragança. Há também a participação de artistas convidados: o fotógrafo André Mantelli, que documentou uma saída de bate-bolas no Carnaval de 2013, e o artista plástico Aloysio Zaluar, autor de uma série de pinturas realizadas na década de 1970 sobre os fantásticos mascarados do Carnaval. Complementam o álbum fotografias das décadas de 1970, 1980 e 1990, mostrando as mudanças e continuidades na tradição dos bate-bolas.

A obra terá ainda um mapa do Rio de Janeiro com a localização de mais de 300 turmas de bate-bolas e o ensaio “Eu, bate-bola”, que narra a imersão de Bragança nesse universo. O cineasta passou o Carnaval de 2013 como nativo do grupo, sofrendo a mesma violência policial que tenta tirá-lo das ruas, uma consequência do onipresente processo de “revitalização”, “limpeza” e “ordem” da cidade.

“[...] nós, os bate-bolas e clóvis, representamos também o engano, o erro, o ruído, os exus, os sacis, Loki, a batalha simbólica do homem com o imponderável, o inusitado e o que nos tira do repouso, do conforto e do planejado. As bombinhas estouradas nas ruas, a batida forte das bolas de plástico no chão quando passamos correndo no meio da multidão, o mistério das máscaras e das sombrinhas que caminham em linhas projetadas como uma tropa de deuses entre foliões perdidos na festa – tudo ali fala também dos espíritos, do invisível e do imponderável – nos lembra dessa silenciosa certeza de estarmos ali para celebrar a vida. As potências da vida.” – Felipe Bragança, em “Eu, bate-bola”.

Saiba mais sobre os “clóvis” e “bate-bolas”

A fusão estética e ritualística dos clóvis cariocas surgiu de um caldo que juntava, na região portuária, a cultura negra dos ex-escravos, a portuguesa da pequena burguesia de comerciantes e as influências difusas e diversas dos marujos europeus. A palavra “clóvis”, diz a lenda, seria uma corruptela de clown, escutada da boca dos marujos alemães que trouxeram para a cidade a tradição das máscaras do Carnaval de Colônia nas primeiras décadas do século XX. A mistura cultural deu origem a uma tribo de palhaços mascarados, misteriosos, sedutores, que usavam roupas de tecidos coloridos e incorporavam os espíritos da algazarra e a ritualística de celebração das divindades. O grupo é também chamado “bate-bolas”, pelo uso das bexigas de boi ou de plástico para gerar barulho.

Com a grande reforma urbana e consequente limpeza social e étnica pela qual a cidade do Rio de Janeiro passou na década de 1920 (a “modernização”), manifestações populares de resistência cultural como a capoeira, o samba e as religiões de origem africana foram reprimidas, controladas e violentamente cerceadas nas zonas centrais da cidade. Ao invés de desaparecerem, porém, esses grupos se exilaram nos bairros mais distantes do controle central, cresceram e se multiplicaram ao longo da linha do trem que corta o subúrbio.

Dos pequenos grupos de foliões que chamavam a atenção nas ruas do Rio de Janeiro no início do século passado até os dias atuais, a cultura dos clóvis ou bate-bolas se expandiu e se desenvolveu – somando hoje cerca de 400 grupos (que podem ter de 10 a 200 integrantes) que se espalham especialmente pelas zonas Norte e Oeste da cidade e que a cada ano demonstram variantes nos tipos de roupas, máscaras e acessórios que usam.

Sobre o autor

Felipe Bragança, nascido em 1980, é cineasta formado pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e foi criado entre o bairro de Santa Teresa e a cidade de Queimados, na Baixada Fluminense. Dirigiu cinco curtas e os longas A fuga da Mulher Gorila (2009) e A alegria (2010), apresentados nos festivais de Locarno e Cannes, além da websérie do projeto CLAUN. Escreveu ainda os roteiros de filmes como O céu de Suely (2006), Girimunho (2011) e Praia do futuro (2014). Desde 2011, dedica-se à criação do projeto transmídia CLAUN e é integrante de um grupo de bate-bolas na zona Norte da cidade.

Sobre os artistas

Daniel Sake (1986) é ilustrador, animador e motion designer carioca. Em 2009 se formou em cinema pela Universidade Federal Fluminense, onde foi diretor de três curtas-metragens e montador em outras produções. Desde 2007 trabalha como freelancer para produtoras de cinema e audiovisual, redes de televisão e clientes do mundo da moda, artes e música. Sempre fez histórias em quadrinhos, Claun é sua primeira publicação.

Diego Sanchez (1989) é quadrinista e ilustrador carioca. Iniciou sua formação como bacharel em gravura na Escola de Belas Artes em 2007 e desde então atua como ilustrador freelancer. Atualmente, participa ativamente no cenário independente de quadrinhos, editando e desenhando com o coletivo Libre!, ao lado de Felipe Portugal e Beatriz Lopes.

Gustavo Bragança (1983), graduado em cinema e doutor em literatura, atua em diversas áreas, entre direção e roteiro para cinema e TV, direção de arte e cenografia, animação e ilustração. Estabeleceu parceria com Felipe Bragança e Marina Meliande em vários de seus filmes, atuando principalmente como diretor de arte e ganhando destaque com o premiado longa A ALEGRIA (2010). Fez as ilustrações da abertura dos três episódios iniciais da websérie Claun (2013).

Ficha técnica

Título: CLAUN: a saga dos bate-bolas
Autor: Felipe Bragança
Arte: Daniel Sake, Diego Sanchez e Gustavo M Bragança
Páginas: 120
ISBN: 978-85-7559-393-6
Preço: a definir
Ano: 2014
Editora: Barricada